O Penedo do João Freire

Não o podemos negar, fomos bafejados pela sorte! Temos uma paisagem natural que faz roer de inveja muita região do país mas...não temos sabido tirar partido disso. Eu sei que as verbas são curtas, que ao longo dos anos, as prioridades foram as infraestruturas básicas, os equipamentos, o apoio social e a educação, mas há que o dizer, o turismo nunca foi uma aposta estratégica para o município. Os discursos redondos podem dizer o contrário, mas a verdade, é que o turismo, o setor que poderia ajudar a aumentar o rendimento per capita do penacovense, é insipiente!
A Livraria Mondego, ou o Penedo do João Freire, como se pode ler na legenda do belo postal do século passado, é apenas um exemplo do muito que temos desperdiçado.
Mas, poderão questionar, será aquele conjunto de pedras assim tão importante?
O valor paisagístico é inquestionável, a localização privilegiada e sobre o valor científico, gostaria de reproduzir, se me é permitido, parte do texto que o Prof. Luís Carlos Gama Pereira, do Departamento de Ciências da Terra da FCTUC, escreveu para a candidatura da Livraria Mondego às "Sete Maravilhas Naturais".
"Há 500 milhões de anos a região do Buçaco, bem como toda a
Beira Baixa, Beira Alta e região duriense, esteve coberta pela água de um mar
que já desapareceu há muito e a que os geólogos chamam de Rheique. Na verdade
cobria quase toda a Península Ibérica e era um mar raso de areias brancas,
camada sobre camada, em águas transparentes com algumas zonas um pouco mais
profundas e algumas ilhas não muito elevadas. Os areais extensos e os fundões
mais lamacentos ou pedregosos perdiam-se de vista. Nestas areias e lamas viviam
uns artrópodes marinhos, as Trilobites, que eram os seus principais habitantes.
E foi nestas areias, tal como se interpreta hoje, que deixaram longos rastos
das suas caminhadas, as bilobites.
Quando estes fundos foram apertados pela colisão de dois
grandes continentes então existentes, começaram a ficar arqueados até serem
completamente enrugados como as dobras de uma concertina. Contudo os fechos
dessas dobras eram mais redondos tal como grandes caleiras ou como se
estivéssemos a ver o ondulado de um velho telhado feito com telha lusitana.
Uma dessas grandes caleiras, a que os geólogos chamam
sinclinais, constitui a Serra do Buçaco. Os dois bordos do sinclinal, por serem
constituídos por aquelas areias endurecidas (quartzitos) ficam salientes no
relevo, resistindo ao desgaste da chuva e do vento (erosão) e preservando o
perfil da Serra, desde há muitos anos. O lado poente do sinclinal está mais
partido e retalhado do que o lado nascente. No lado poente, desde o Penedo do
Castro até aos Moinhos de Gavinhos e daí até à Ponte da Mata, o alcantilado está
muito segmentado. No lado nascente, desde o Luso, Cruz Alta, Moinhos da Portela
da Oliveira até ao Mondego e daí até muito mais a sudeste, os quartzitos
resistem e fazem um caminho quase contínuo. No fundo do sinclinal que se
percorre por estrada antiga, pode descer-se desde Sazes passando pela
Espinheira, Galiana até Penacova. Tudo isto foi detalhadamente estudado por
Nery Delgado no séc. XIX e no princípio do séc. XX, tendo deixado como
resultado desses trabalhos alguns mapas de grande beleza e rigor.
Nas fragas que o Mondego atravessa, os quartzitos estão
cortados e mostram em qualquer das suas margens, mas especialmente na margem
norte, as camadas de quartzitos verticais, como fiadas de prateleiras de livros
da velha biblioteca da Universidade de Coimbra. Aqui, o espectáculo das antigas
areias postas ao alto, hoje quartzitos, mereceram a designação de Livrarias do
Mondego, pela sua beleza e pela posição particular em que se encontram,
constituindo um património geológico e turístico que deve ser divulgado e
preservado e não deve deixar de ser visitado."
Este comentário foi removido pelo autor.
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ResponderEliminarNa obra Patrimónios de Penacova, de J. Leitão Couto e David Almeida ( e também no livro Penacova, o Mondego e a Lampreia, de Carlos Fonseca e Fernando Correia) refere-se um pormenor da importância geológica desta zona:
Já nos finais do séc. XIX o prestigiado geólogo Nery Delgado fez importantes estudos na zona e elaborou uma Carta Geológica do Buçaco. Em 1915, segundo notícia do Jornal de Penacova, quando decorriam as obras da Estrada Real n.º 48 na zona de "Entre-Penedos" foi descoberta " uma pedra curiosíssima com desenhos em alto relevo, que não obstante serem irregulares, são de traço uniforme, de largura aproximada de seis centímetros, em forma de cordão (…) os desenhos ou antes cordões entrecruzam-se, sobrepondo-se no ponto de contacto. A pedra que conseguiu arrancar-se mas fragmentada, mede cerca de 3 metros de comprimento por um e meio de largo e de 20 a 30 cm de espessura. Ora, esta "pedra curiosa" ainda hoje se encontra exposta no Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra (Ver fig. 85), com a indicação "Bilobites – Vila Nova - Penacova). Seria um motivo de interesse local se o original (ou uma réplica) estivesse exposto em Penacova. Na altura, o lente de Geologia, Anselmo Ferraz, mandou remover a placa para o museu daquela cidade – diz o referido jornal - para estudo e posterior exposição. Junto do painel de grandes dimensões podemos ler a seguinte informação: "Cruziana sp. – Marcas da locomoção produziadas pelo movimento de trilobites sobre sedimentos pouco estabilizados. As trilobites deslocavam-se rastejando semi-enterradas no sedimento com ajuda de apêndices locomotores. Pensa-se que estas marcas poderão estar também relacionadas com os métodos de alimentação utilizados pelas trilobites". Como escreveu Carlos Neto de Carvalho, são "janelas temporais" dum mundo "perdido" há cerca de 500 milhões de anos. Em Penha Garcia são visíveis muitos destes icnofósseis (vestígios da actividade biológica).
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Nas obras referidas são apresentadas imagens da Lage de grandes dimensões colectada na zona da Livraria do Mondego em 1915. Museu Geológico. Coimbra (Icnofóssil de Trilobite semiplicata Período do Ordovícico da Era Paleozóica ) e ainda de Trilobites (Bacia Silúrica do Buçaco) In Decio Thadeu - "Trilobites do Silúrico de Loredo (Buçaco)". — Separata do Bol. da Soc. Geol. de Portugal. Vol. VI, fase III, Porto, 1947.
David Almeida / Penacova Online
(obs: o comentário acima referido como eliminado era exatamente o mesmo que aqui fica publicado. Aos leitores as nossas desculpas.
O seu comentário vem sustentar o que já se disse sobre o valor científico da Livraria Mondego. Conheço Penha Garcia e entrevistei o Prof Carlos Neto de Carvalho a propósito de uma reportagem que fiz para a Antena1 sobre o Geopark Naturtejo. Cumprimentos.
EliminarOs meus cumprimentos também, saudando o aparecimento deste blogue que tendo como autor um profissional da comunicação e da informação nos dá a garantia de qualidade e continuidade. O nosso comentário pretendeu complementar e reforçar a importância daquele local, que vai muito para além do "visível", apesar de estar longe de apresentar a "imponência" de Penha Garcia. O referido artigo do JP de 1915 intitulava-se "A Pedra Curiosa", numa época em que a explicação científica de tal achado ainda não era consensual.
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