Velho tribunal a Museu Municipal!

Muitos penacovenses interrogam-se sobre o destino a dar ao antigo edifício do tribunal. A conversa mais recorrente é a de que, depois da transferência para as escolas, o movimento, o comércio, o afluxo de pessoas ao centro da vila diminuiu significativamente.
Não sei se será assim, porque não estou em condições de aferir, com rigor, esse efeito da passagem do tribunal para o Largo D. Amélia. Mas não sou indiferente a esta situação e preocupo-me, de facto, com a ausência do tal movimento, que aliás, não vem de agora, pode é ter-se agravado. A transferência do tribunal foi a solução encontrada para ultrapassar, por um lado, o estado de decadência do edifício e, por outro, a ameaça de encerramento dos serviços que chegou a ser anunciado no novo mapa judiciário.
Aliás, a história parece repetir-se e Penacova andou sempre, fora e dentro, do tal mapa! A comarca de Penacova foi criada em 1875, no âmbito de uma reforma do sistema judiciário mas...em 1927 foi extinta passando a julgado municipal. A comarca só se afirmou, de vez, em 1973 e, nos últimos anos, o poder central voltou a colocá-la na lista negra.
Entronca nesta autêntica novela, o prometido, mas nunca realizado, palácio da justiça. Em 1995, o então ministro da justiça, Laborinho Lúcio veio a Penacova assinar com a câmara um protocolo com vista à sua construção. O município até disponibilizou terrenos, na zona da Eirinha. Anos mais tarde, em 2008, José Conde Rodrigues, secretário de estado adjunto e da justiça, visitou Penacova e anunciou a construção do palácio da justiça. A obra, com um investimento de 1,9 milhões de euros, estaria concluída em 2010... Os governos sucederam-se mas a obra nunca saiu do papel.
E se, nessa altura, o palácio da justiça tivesse mesmo sido construído na Eirinha? A discussão sobre a quebra de movimento, no centro da vila, teria sido antecipada e, novas soluções teriam sido encontradas, digo eu, para procurar minimizar esse efeito e já teríamos dado o passo seguinte.
Admito que, no dia a dia, durante o horário de expediente, o encerramento do tribunal tenha provocado impactos negativos, mas julgo que a questão que aqui realmente importa não é essa.
Penacova sofre do mesmo mal de que sofrem muitos municípios do interior e a crise, dos últimos anos, colocou a nu grande parte das nossas fragilidades. Despovoamento, envelhecimento da população, falta de emprego. Há alguns anos fiz uma reportagem para a rádio sobre o tema da desertificação e despovoamento do interior. Visitei demoradamente alguns concelhos que sofriam, e ainda sofrem, com estes problemas. Vila Velha de Rodão, Figueira de Castelo Rodrigo, entre outros. Este último foi dos primeiros no país a avançar com medidas de incentivo à natalidade, no género das que Penacova anunciou recentemente. A intenção é boa e até pode ter alguns resultados pontuais mas, como defendem alguns geógrafos que consultei na altura, não invertem a tendência.
Sobre a questão do emprego, andámos os últimos trinta anos a dar tiros ao lado. Apesar da nossa raiz não ser industrial, construíram-se parques que nunca o foram na sua real dimensão. Não soubemos tirar partido da grande acessibilidade, mesmo aqui à porta, o IP3, que nos coloca numa posição confortável, entre o litoral e o interior, e desperdiçámos a oportunidade de poder contar com a ajuda comunitária. Tentamos agora, com a conjuntura desfavorável, remar contra a maré.
Na penúltima campanha autárquica moderei um debate com os candidatos e, na altura, desafiei-os a apresentarem projetos diferenciadores, aquilo a que chamei projetos-âncora. Julgo que aqui poderá estar uma das soluções para mudar o atual estado de coisas. Na minha opinião, Penacova deve concentrar todos os seus esforços de investimento na área do turismo, coisa que até aqui não aconteceu. O turismo é, nos dias de hoje, uma das "indústrias" mais rentáveis do mundo. À sua volta orbitam empresas em áreas tão diversas como a restauração, alojamento, viagens, atividades ao ar livre, artesanato, comércio, património, transportes, etc... O mais extraordinário nisto tudo é que Penacova, como diz a canção brasileira, "foi abençoada por Deus e é bonita por natureza!"
Ou seja, nós temos o diamante, mas ainda não o lapidámos! E onde é que aqui encaixamos o antigo tribunal?
Em 2011, a câmara de Penacova tornou público um projeto de requalificação. Os planos para o edifício passam por criar espaços de lazer, arte e cultura, gabinetes de apoio, serviços multifuncionais, etc. Parece-me muito vago e, acima de tudo, pouco ambicioso. Se a intenção é transformá-lo num equipamento cultural, aqui está uma excelente oportunidade para criar um dos tais projetos-âncora.
A minha proposta é...um Museu Municipal! Sim, um museu, da nova geração, interativo, de sensações e afetos, que revele todo o nosso riquíssimo património natural e construído. Dos moinhos de vento às barcas serranas, do rio aos palitos, das filarmónicas às tradições etnográficas.
Um espaço à imagem, por exemplo, do museu "À Descoberta do Novo Mundo", em Belmonte, ou mesmo, apesar de mais focado num tema, do Fluviário de Mora. São dois projetos vencedores que conseguiram multiplicar várias vezes o número de turistas.
Não tenho dúvidas que Penacova necessita de projetos deste género. É preciso arriscar e deixar a tal "zona de conforto", sob pena de hipotecarmos o futuro.
Novas instalaçoes para o tribunal eram uma necessidade, mas a opçao de transferir o edificio para a antiga escola primaria foi uma opçao politica. A terem que ser feitas obras, porque nao fazer obras no edificio onde ja funcionava, mantendo o tribunal no centro da vila? Ha uns tempos vi um comentario de alguem a queixar-se de que houve um concerto de grupos corais na casa do povo e nao apareceu ninguem para ver.. querer fazer mais um centro de exposiçoes quando ja existe uma casa da cultura parece-me despropositado. Tanto mais que deixaramperder o financiamento para essa casa da cultura. Agora vamos ter um edificio a cair aos bocados sem utilidade nenhuma porque nao vai haver dinheiro para la fazer o que quer que seja
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