A rainha do Mondego deve voltar a reinar!
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| Barca Serrana construída em 2012 |
Há dois anos, uma nova barca serrana foi construída ao abrigo do programa NEA2 - Náutica no Espaço Atlântico. O projeto, executado sob a alçada da AD ELO - Associação de Desenvolvimento Local da Bairrada e Mondego, tinha entre os seus objetivos, potenciar os recursos turísticos e preservar o património.
O exemplar da barca serrana foi colocado no Reconquinho com o intuito de voltar a navegar nas águas do Mondego. Sob pena de estar a ser injusto, porque não acompanhei os passos seguintes, arriscaria dizer que os resultados da iniciativa foram muito tímidos.
E é pena, pois a barca serrana, símbolo máximo do concelho, merecia voltar a ser a rainha, não dos mares, como o navio de cruzeiro, mas do rio!
Há alguns anos atrás, o arquiteto Fernando Simões Dias, autor do livro "Ó da Barca! - Memória da Barca Serrana do Mondego", um profundo conhecedor de embarcações tradicionais, defendeu, e bem, a criação de percursos no Mondego como forma de promover o turismo na região e preservar este valioso património.
O apogeu do tráfego comercial fluvial no Mondego aconteceu durante os séculos XVIII e XIX e em meados do século passado, já em plena fase de decadência, ainda estavam registadas na Capitania do Porto da Figueira da Foz, cerca de quinhentas embarcações, entre barcas serranas, barcos de Montemor e barcos saleiros da Figueira. Mas, sem dúvida, que a barca serrana era a rainha do Mondego. Era ela que fazia as trocas comerciais entre a Foz do Dão e a Figueira da Foz e era o motor da atividade económica da região. Nessa altura não existiam estradas, os caminhos eram para carros de bois, para burros. O transporte de mercadorias do litoral para o interior era feito pelo rio. As barcas subiam até à Foz do Dão e daí para cima, as mercadorias iam nos dorsos das mulas, dos almocreves. Era desta forma que se chegava a toda a Beira, até à serra da Estrela e mais além.
A importância das barcas serranas não se resume ao papel desempenhado no tráfego comercial fluvial. A juntar a tudo isto, teremos que somar a herança cultural personificada nos barqueiros, ajudantes, nas próprias lavadeiras, nos pescadores, no fundo, na vivência das populações ribeirinhas que floresceram nessa época.
É este património, que é nosso, que não devemos deixar apagar!
Em 2003, a convite da câmara, desci o Mondego a bordo da barca serrana. Ao leme, os barqueiros Armando Espírito Santo e António Ventura, conduziram a rainha do Mondego até à praia fluvial do Casal da Misarela. Ficou gravada na minha memória a reação de espanto e, ao mesmo tempo, de admiração, dos muitos turistas, ao verem passar a elegante embarcação de vela ao vento! Nesse verão realizaram-se mais alguns passeios, rio abaixo, mas a iniciativa não teve a continuidade esperada.
Estamos em finais de Maio, ainda a tempo, de recuperar estes passeios que poderiam ser um atrativo turístico relevante. Os açudes, cuja utilidade é muito questionável, são uma limitação à navegação mas seria possível encontrar soluções e trajetos mais pequenos. E a própria embarcação poderia ter motores, tal como os moliceiros, que passeiam nos canais da ria de Aveiro, para facilitar a navegação.
A barca serrana já não transporta lenha, nem carqueja, trouxas de roupa ou sal, mas nem por isso, deixou de ser rainha do Mondego.
A memória do seu passado glorioso pode e deve ser recuperada através de passeios turísticos que promovam Penacova e o nosso património.

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