Arménio Batista, o último sapateiro da Cheira

Arménio Batista na oficina da Cheira
Nasceu numa família numerosa, de muitos irmãos e irmãs, e em berço de dificuldades. O avô era sapateiro e vários elementos seguiram-lhe as pisadas. Naquela época, e estamos a falar na primeira metade do século XX, a vida numa região pobre como Penacova era parca em recursos. Os rapazes começavam a trabalhar ainda muito jovens e poucos completavam a quarta classe. Na família de Arménio Batista, e em tantas outras do Portugal rural daquela altura, os ofícios tradicionais e a agricultura eram a única opção de vida para poder subsistir.
"Aos cinco anos já ajudava meu pai na loja. Chegava da escola e ia para junto dele endireitar pregos e outras vezes enrolar linhas para cozer o calçado!". O pai, conhecido na Cheira pelo nome de Manuel do Gil, tinha uma mercearia ao fundo do lugar. "De vez em quando escapava e ia para a capela jogar à bola com os outros rapazes. Jogávamos na estrada com uma bola de trapos", recorda Arménio Batista, hoje com 77 anos.
Com vários sapateiros na família, cedo começa a aprender o ofício - "percorria vários lugares para entregar o calçado já reparado. Ia para Oliveira do Mondego, para o Casal de Santo Amaro e outras aldeias, sempre de bicicleta."
Aos dezassete anos, em plena década de cinquenta, junta-se à vaga de emigração e vai para o Brasil em busca de uma vida melhor. "Precisava sair e tentar a minha independência!".
Um ofício em vias de desaparecer
A presença de alguns elementos da família no Rio de Janeiro ajuda à integração num meio completamente novo. "Tinha lá um tio, o António que também era sapateiro e me ajudou. Também passei por uma oficina de italianos e, julgo que em 1959, passei a trabalhar num estabelecimento perto do estádio do Maracanã, na rua 24 de Maio."
Com o passar dos anos, Arménio Batista ganha experiência e adquire uma loja em Jacarepaguá, onde já vivia e trabalhava outro familiar. "O meu tio José tinha uma sapataria e eu acabei por comprar uma oficina ali ao lado. Fiquei lá mais de vinte anos e depois regressei a Portugal."
Vem do Brasil e, no inicio da década de oitenta, abre uma oficina de sapateiro na rua do Brasil, em Coimbra que ainda está de portas abertas. Ao mesmo tempo, na Cheira, também tem uma loja de reparação de calçado - "em Coimbra ainda tenho alguns clientes fiéis que calçam bem e não se importam de pagar vinte e cinco euros por umas meias-solas. Os profissionais, como eu, quase acabaram porque o mercado foi invadido por calçado barato e quando fica estragado vai para o lixo. É o que eu chamo de calçado descartável", explica.
Hoje em dia, os poucos clientes que aparecem procuram reparações mais em conta, como colagens de capas e meias-solas. "As pessoas não têm muito dinheiro e, por isso, preferem comprar calçado barato vindo da China e de outras paragens. O conserto de calçado não fica barato porque, além da mão de obra, do meu trabalho, ainda tem o preço da matéria-prima. Um quilo de sola, por exemplo, custa quinze euros", acrescenta Arménio Batista.
À porta da oficina, na Cheira, um cartaz escrito à mão, diz que é o último sapateiro da Cheira em atividade! "E assim serei até morrer!"  




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