O maior escriba lança "Memória de Pedra"
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| António Luís, fotografado na Madeira |
No atual MCP (Movimento Cultural Penacovense) olho à minha volta e não tenho qualquer dificuldade em apontá-lo como o maior escriba cá do pedaço. E não é de agora, mas de há muito, muito tempo! Sim, o António Luís é um talento da escrita. Pouco importa se está a viver cá ou não! Para mim é de cá e continuará a ser! Quando passamos os olhos por um texto dele ficamos rendidos à forma, ao conteúdo, à estética das palavras. Tudo faz sentido, tudo flui, como se as palavras corressem naquelas veias.
Conheci-o, mais de perto, quando começou a colaborar com o Jornal de Penacova, em meados dos anos noventa. Uma das suas primeiras crónicas intitulava-se "Nem por isso...". Escrevia ele a propósito - "Para começar talvez seja de bom tom explicar o porquê deste título. As coisas não estão bem, ou melhor, algumas coisas, muitas coisas não estão bem. Vai daí, sempre que se esbarre com algo que não está bem, mas que aparenta estar, haverá nesta página um aviso à navegação, sob a forma de um "Nem por isso!..."
Acutilante, sarcástico, bem humorado até, o escriba de quem se fala foi também o autor de um dos textos do JP que ficou na memória de muitos - "Carta para mim", na rubrica, "O mundo, às vezes...", que alimentava as páginas do jornal em 1999 - "Sempre quis escrever uma carta a mim mesmo, por isso, resolvi colocá-la nos correios da vila e esperar uns dois dias para a receber (...) Abri-a e lá dentro era assim: "Algures, Penacova, Julho de 1999. Meu Caro Amigo (eu, portanto!). Espero que esta te encontre bem que eu por cá estou bem, graças a D...(não, a esse não porque como sabes (sei) sou agnóstico!) Ontem dei uma volta pelo concelho, que já não o via há (é assim que se escreve, não é? Às vezes confundo as coisas) uns meses valentes e de uma maneira geral o município pareceu-me estar na mesma (...)".
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| Capa do primeiro livro do autor |
Num concelho onde o poder local quase sempre revelou pouco jogo de cintura e pouca capacidade de encaixe face à crítica e à reflexão, o António Luís sempre foi visto, naquela época, como um tipo do contra. Em 2002, no espaço de opinião, "A incorrecção da escrita", escreve - "este espaço que convosco partilho, não pretende ser um poiso da monotonia e da quadratura das palavras, ou em que o pífio da escrita tomem demasiado lugar. Só não muda quem não tem em si essa capacidade e se (re)conforta na mental preguiça do imobilismo e na contemplação umbilical."
A marca deixada pelo António Luís no JP, ficou bem vincada no seu primeiro texto, em 1996. Chamava-se "Avenida Sniper nº 0". Era um texto que falava da falta de uma máquina de venda de preservativos, algures numa esquina das farmácias da vila. O próprio comentaria, mais tarde, essa primeira "aventura" - "foi um texto que, pelo que soube, causou alguma estranheza, sobretudo quanto ao estilo."
Nos últimos anos, não o perdi de vista e, sempre que posso, leio os textos do seu punho que alimentam a blogosfera. Foi, por isso, com grande satisfação que folheei o livro que lançou recentemente - "Memória de Pedra". "Chegou o sonho de uma vida! Tanto eu, tanta gente, tanto tempo, nestas quatrocentas e cinquenta páginas!", escreveu a propósito. Ainda não li o livro até ao fim, mas do que já saboreei, posso dizer que o escriba continua igual a si mesmo e o facto de se ter mudado para o meio do Atlântico depurou-lhe a escrita - " Circunstâncias profissionais retiraram-me da terra continental e colocaram-me na ilha da Madeira, desde Agosto de 2009. Não há como estar aqui, sem perceber o compasso da terra, entrecortado pela paisagem abrupta e quase rude que nos entra pela visão a cada passo que se dá (...)"
O primeiro livro do António Luís é uma coleção de textos, entre inéditos e outros que foi escrevendo ao longo dos últimos anos. "São matéria pessoal, resultam do modo como vejo e sinto as coisas (...) Destilam ansiedades, perturbações, apertos, medos, pessimismos, insónias, sonos, esperanças, alegrias, delírios, humores e regozijos (...) Dedico-os a todos os que acreditam em mim e que eu tanto estimo. (...)" Eu acredito, António!


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