Artur Carril mil estórias para contar!
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| Artur Carril na sede do rancho do Zagalho e Vale do Conde |
Nasceu em Vale Maior a 9 de outubro de 1921, tentava Portugal recuperar da participação na I Guerra Mundial. Estudou na escola de Friúmes e "fui aprovado no exame com distinção", conta com saudade. Os tempos da meninice foram passados a ajudar o pai que era agricultor e criador de gado, "tinha mais de cinquenta cabeças, entre ovelhas, cabras e vacas. Além disso também amanhava terras", recorda Artur dos Santos Carril.
Muito novo começou a ganhar o gosto pela música - "era bom de ouvido e aprendi sozinho a correr atrás do gado pelas serra!" Na juventude formou um grupo, em Vale Maior, "três violas, dois bandolins, uma flauta e um violino", que percorria as aldeias em redor - "eram bailaricos à luz da candeia e às vezes, nas disputas pelas raparigas, apagavam-se as candeias e a coisa ficava feia..."
A emigração, que levou grande parte da sua geração para as terras longínquas do Brasil, também lhe bateu à porta - "tinha vinte e cinco anos e fui à procura de uma vida melhor!"
O relato da viagem a bordo do navio "Serpa Pinto" é bem revelador da enorme capacidade de memória, apesar dos seus 94 anos de idade - "Saí de Lisboa no dia catorze de Abril de 1946. O navio partiu em direção à ilha da Madeira, onde estivemos um dia e uma noite para reabastecer. Da Madeira seguimos viagem para a ilha do Sal, em Cabo Verde e daí para Tenerife. Depois de uma longa travessia do oceano lá chegámos a Recife, capital do estado de Pernambuco."
A trajetória mais lógica que seria para norte, de Recife para Belém, no Pará, a cidade de destino final, mas não se cumpriu por questões de segurança relacionadas com o pós II Guerra Mundial. O "Serpa Pinto", um dos navios da frota da Companhia Nacional de Navegação que operou entre 1940 e 1955, seguiu rumo ao sul e ancorou no Rio de Janeiro - "fiquei maravilhado com os prédios e os hotéis de Copacabana" - conta Artur Carril - "à chegada, quem não tivesse comprovativo de que ia para determinada morada não podia abandonar o barco. Quem me safou foi um amigo de Freixo de Espada à Cinta que me disse para dar o seguinte endereço à polícia - "rua Frei Caneca, nº 19! E lá fui eu!"
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| É o quinto a contar da direita na primeira tocata do Zagalho |
Nos primeiros dias de maio, finalmente, a viagem para Belém, a sua primeira viagem de avião - "foi maravilhoso ver lá de cima cidades como nunca tinha visto: o Rio, Belo Horizonte, e outras lindas paisagens".
Belém, a capital do estado do Pará, no norte do Brasil, foi a cidade que o acolheu durante oito anos - "a primeira atividade foi uma leitaria. Eu criava as vacas numa exploração e vendia o leite. Os primeiros tempos foram muito duros. Era preciso acordar muito cedo, por volta das três da manhã, para a ordenha. Anos depois, mudei de ramo e abri uma sorveteria. No Brasil consomem-se muitos gelados por causa do clima quente e húmido. Em Belém andava sempre com a roupa colada ao corpo. Chamava-se Sorveteria Santo António."
O negócio até corria bem, mas com a mulher em Portugal, Artur Carril decidiu regressar - "e voltei à fazenda. Comprei alguns terrenos e hoje estou bem!"
É então que a música volta a ocupar um lugar importante na sua vida - "ajudei a formar o rancho do Zagalho e Vale do Conde, em 1979, que fez a sua primeira atuação oficial na barragem da Aguieira. Mas também fui fundador do rancho de Carregal de Friúmes, na década de oitenta, toquei no rancho de Paredes, no de Miro e hoje continuo a tocar nos ranchos do Zagalho e no de Penacova."
O bandolim é o seu instrumento preferido mas também toca viola e, durante algum tempo, tocou violino. Com uma jovialidade ímpar e uma memória invejável, Artur Carril continua a fazer o que mais gosta - "no rancho do Zagalho estou há quase quarenta anos e no de Penacova há vinte e dois!"


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