O legado de Martins da Costa pela primeira vez em livro

Martins da Costa, a esposa D. Rosa Moutinho e eu em 1995
Martins da Costa partiu há onze anos e, em meu entender, a sua extraordinária obra continua desconhecida de grande parte dos penacovenses. É da mesma geração de pintores como Júlio Resende, Nadir Afonso e Júlio Pomar mas, apesar da sua inegável qualidade, não teve a mesma projeção junto do grande público.
O reconhecimento do seu valor artístico está bem patente nos muitos prémios e distinções, nas obras adquiridas por vários museus, nas bolsas internacionais e nos trabalhos de decoração mural feitos em vários edifícios públicos.
Até à década de setenta, Martins da Costa esteve sempre visível, quase em permanência, no meio artístico. A vinda para Penacova, uma opção conscientemente assumida, retirou-lhe protagonismo e as suas aparições tornaram-se mais raras. Voltou a expor individualmente no Porto, no início dos anos noventa, mas o seu nome deixou de circular com a mesma frequência do passado. Martins da Costa era um pouco avesso ao circuito das galerias e ao negócio dos quadros e, talvez isso, tenha contribuído para esse afastamento.
Tive o privilégio de ter sido seu amigo e aluno. Recordo-me do dia em que, ainda miúdo, num passeio pelo Mirante, o meu pai nos apresentou. Ele e o seu cão, a lindíssima Farah, foram duas silhuetas que me ficaram, para sempre, na memória.
Voltei a reencontrá-lo mais tarde, na escola secundária, nas aulas de Desenho. Era um professor rígido e disciplinador e muito compenetrado na sua missão de educar e ensinar. Admirava-lhe a vasta cultura geral e a facilidade com que dissertava sobre qualquer assunto. No Jornal de Penacova, o contacto tornou-se mais efetivo. Durante alguns anos trocámos ideias e impressões sobre os temas das suas crónicas, sobre este mundo e outros mundos e, esses anos de maior proximidade, cimentaram a imagem de um homem que ia muito para além da faceta de artista ou de pintor.
A sua relação com Penacova era telúrica e, ao longo dos anos, criou raízes muito fortes. Preocupava-se com a "sua" terra como poucos. Nas muitas crónicas que dedicou ao quotidiano da vila, lá estão as figuras pitorescas, as lendas, os costumes, mas também a preocupação com questões ambientais e de defesa do património. Tinha um forte espírito crítico o que o impulsionava, repetidas vezes, a chamar a atenção das entidades competentes.
Tudo isto é elevado a um patamar mais elevado quando entramos na sua arte maior, a pintura. São inúmeros os quadros dedicados a Penacova e, em particular, ao vale do Mondego. A paisagem arrebatou-o, sobretudo a que tinha bem à sua frente, na casa que construiu na Costa do Sol.
A paisagem, juntamente com a composição de figuras, são denominadores comuns na sua obra, assim como as cores densas e as formas geométricas. Foi discípulo dos modernistas Dórdio Gomes e Joaquim Lopes e colaborou com os "Independentes", um grupo de escultores, pintores e arquitetos que, em meados do século passado, procurou difundir a cultura fora dos grandes centros.
Nos anos dedicados ao ensino, Martins da Costa influenciou gerações. Foi professor em Penacova, a partir de meados dos anos setenta, e marcou muitos de nós pela sua personalidade forte, inteligência e competência.
Pela primeira vez, este enorme legado, deixado por João Martins da Costa é retratado em livro. A riqueza dos textos, escritos pela própria mão, são enriquecidos com reproduções dos alguns dos seus quadros e com o seu vasto espólio fotográfico. É um projeto ao qual me entreguei de alma e coração que pretende, sobretudo, reavivar a sua obra e, ao mesmo tempo, homenagear este grande homem e artista que, um dia, escolheu Penacova para viver.

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