Porque razão não partem as canoas do Reconquinho?
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| Intervenção na Carvoeira não resolveu o problema |
Em 1988, os belgas Dirk e Kristen foram os pioneiros das descidas de canoa no Mondego. O Pioneiro do Mondego tornou-se assim numa das primeiras empresas de desporto-aventura do país a explorar um filão que, quase três décadas depois, continua a ser um dos grandes cartazes turísticos da região.
As descidas de canoa começavam na praia do Reconquinho e era um regalo para olhos, ver no areal da praia, as canoas amarelas alinhadas em fila, dando um toque ainda mais colorido à paisagem. O local de partida da viagem alterou-se, anos mais tarde, com a construção do açude da Carvoeira. A estrutura, criada para aumentar o espelho de água na praia e diminuir a força das correntes, acabou por funcionar como um obstáculo para as canoas. O Pioneiro do Mondego deixou o Reconquinho e começou a viagem rio abaixo a jusante do açude.
Em finais da década de noventa, a recém-criada Sport Margens, de empreendedores penacovenses, iniciou a atividade com descidas a começar no Reconquinho, mas rapidamente os seus responsáveis perceberam que o açude da Carvoeira era uma barreira de risco elevado.
Há um ano atrás, uma intervenção em vários açudes do Mondego, para facilitar a subida de espécies migradoras de peixes, introduziu algumas alterações nas passagens para as canoas, mas a obra feita no açude da Carvoeira não convenceu as empresas de canoagem, que continuam a preferir iniciar o percurso mais abaixo. "A obra não ficou como estava previsto. Prometeram construir a passagem, junto à margem e mais afastada da escada de peixe e não foi isso que aconteceu. O que lá está não oferece segurança, deveria ser uma descida mais suave e com uma quota de água que permitisse a passagem das canoas sem sobressaltos", afirmou à Livraria do Mondego, Vítor Carvalho, da Sport Margens. O empresário penacovense reconhece que seria benéfico, a todos os níveis, iniciar o percurso no Reconquinho, mas sublinha que a segurança dos utentes é a prioridade.
A empresa "Trans Serrano" opera no Mondego há dezassete anos e, apesar de diversificar a sua oferta por vários cenários naturais, o Mondego continua a ser um produto apetecido. "É claro que há interesse, da nossa parte, em iniciar a descida no Reconquinho porque a praia oferece melhores condições, mas confesso que ainda não experimentámos a passagem depois da intervenção feita no açude. Antes não o fazíamos por causa do perigo que representava a passagem. Sei que houve até alguns acidentes", esclarece Paulo Silva, responsável da empresa de Góis.
A experiência de quase três décadas de descidas de rio confere ao Pioneiro do Mondego autoridade para emitir opinião - "o açude da Carvoeira não oferece segurança. A passagem para as canoas ficou emparedada entre duas escadas de peixe e isso não é bom. Deveria ter ficado como a passagem de Louredo, encostada à margem do rio, que permite ajudar os canoístas sempre que necessitarem. Eu estive em várias reuniões com as entidades que fizeram a obra. Julgo que a opção técnica não foi a melhor", sublinhou Jonas Van Vossole, da empresa que tem sede na Cheira. O responsável acredita que se forem introduzidas melhorias, a passagem pode ser possível. Já sobre o regresso ao Reconquinho ficam algumas dúvidas - "é difícil organizar as descidas, no mesmo espaço, para todas as empresas, mas se forem criadas infraestruturas, tais como novos acessos e locais de estacionamento, poderá ser viável", esclarece o responsável do Pioneiro do Mondego.
A intervenção feita nos açudes do Mondego, foi dirigida pela Agência Portuguesa do Ambiente, com o apoio científico da Universidade de Évora. Pedro Raposo, professor do Mare - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, que acompanhou os trabalhos, disse à Livraria do Mondego que a intervenção tinha limitações orçamentais e foi necessário adaptar soluções à estrutura dos próprios açudes, "os quais não primam pela excelência em termos de projeto de engenharia, veja-se o exemplo do açude de Louredo."
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| Açude da Carvoeira com a nova escada de peixe |
Sobre o problema de segurança na passagem de canoas, no açude da Carvoeira, Pedro Raposo, disse que "foi identificado há bastante tempo e, logo nessa altura, tivemos oportunidade de apresentar uma solução às empresas de canoagem e à câmara de Penacova". O professor da Universidade de Évora considera que a solução não é complicada de executar, nem particularmente onerosa - "passa pela colocação de uma, ou duas linhas de boias, iguais às que se utilizam nas albufeiras para proteger os órgãos hidráulicos das barragens, as quais teriam de ser instaladas no início da época das descidas e removidas no final da mesma. Entregámos a ambas as partes um orçamento indicativo e o contacto das empresas que comercializam as referidas boias. Agora é uma questão da câmara de Penacova e das empresas de canoagem se entenderem", concluiu Pedro Raposo.
Pelas contas do Pioneiro do Mondego já desceram o rio, nas suas canoas, mais de cem mil pessoas. Se a estas acrescentarmos, as que já o fizeram nas restantes empresas de desporto-aventura, chegamos a um número que qualquer terra do interior gostava de ver passar pelo seu centro histórico, pelos seus monumentos, pelos seus restaurantes, etc. É evidente que uma fatia destes canoístas, impossível de quantificar, vem apenas com o intuito de fazer a descida do rio, mas estou convencido que muitos teriam curiosidade em conhecer Penacova. Iniciar o percurso na praia fluvial do Reconquinho e ter uma passagem segura no açude da Carvoeira, seria condição para isso, mas infelizmente, nestes quase trinta anos, o poder local ignorou este filão e nada fez, e pelos vistos continua distraído. Assim sendo, esta corrente humana acaba por ir rio abaixo.


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