Um penacovense que pensava pela sua cabeça

Arquivo Jornal de Penacova
Confesso que hesitei em escrever sobre o desaparecimento do Dr. Joaquim Manuel Leitão. Tenho uma grande respeito e amizade pela família e sou solidário com a sua dor e, talvez, neste momento difícil, fosse mais aconselhável remeter-me ao silêncio. Mas, julgo que seria terrivelmente injusto não lembrar a figura e o contributo dado à comunidade por este penacovense.
Conheci-o no tempo em que brincava com o meu amigo Miguel na Cova do Barro. Admirava-lhe os discos de vinil, os livros nas longas estantes do escritório, a réplica de "Guernica" na parede. No fundo, a vasta cultural geral e a forma clarividente como olhava para o mundo em redor. Sem concessões ao óbvio e com um forte espírito crítico. Sempre reverenciei pessoas que pensam pela sua cabeça e defendem as suas ideias e valores. O Dr. Joaquim Manuel era, sem dúvida, uma delas. 
Em maio de 1999 marcámos encontro no restaurante "Cortiço" para uma entrevista ao Jornal de Penacova. O mote da conversa era o CDCP - Clube Desportivo e Cultural de Penacova, associação que ajudou a fundar e de que fora presidente entre 96 e 98. Sem papas na língua, mas com a elevação no discurso que sempre lhe reconheci, falou-me dos conflitos internos entre caçadores e pescadores, do potencial da pista de pesca, da mini-hídrica, da obra inacabada no clube e, inevitavelmente, das suas convicções partidárias e de Penacova. Uma das frases lapidares ficou-me no ouvido - "eu, além de ser do PS, sou antes de Penacova. Gostava que a minha terra progredisse e que tivesse obras estruturantes (...)".
Na vida política foi dos primeiros militantes a inscrever-se no Partido Socialista, mas em 1975 deixou o PS para se candidatar, ao lado de Manuel Serra, à Assembleia Constituinte, tendo sido cabeça-de-lista por Coimbra da então designada FSP - Frente Socialista Popular. No PS, foi presidente da comissão política concelhia, cabeça-de-lista à Assembleia Municipal e na câmara de Penacova foi vereador do pelouro do ambiente. No campo do associativismo foi presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Penacova. Licenciado em Direito, fez carreira como notário e foi, durante mais de uma década, inspetor da Direção Geral de Registo do Notariado.

Comentários

  1. Querido Aàvaro fizeste muito bem esseSh merecia o nosso respeito sempre com uma palabra de carinho bom descanço seija dado a sua Alma

    ResponderEliminar
  2. Pensar pela própria cabeça é um fenómeno raro em Penacova. Os poucos que o fizeram e/ou fazem são logo e devidamente "arrumados" como Burros e afins.
    A partidarite nessa terra sempre foi o maior e mais pesado obstáculo ao seu desenvolvimento.
    Se isso deveria fazer pensar as pessoas? Sim, devia.
    Mas não faz. Porquê?
    Porque a partidarite não deixa.
    Elogio a tua persistência, meu caro!
    Eu já desisti!
    Abraço.
    AL

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

A nova vida do restaurante Panorâmico

Casa Aurora quer trazer turistas para Friúmes

Peru dá prémio à Padaria do Largo