O Terreiro do Paço tem esquecido o IP3
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| A placa esteve lá anos mas a área não saiu do papel |
Tal como muitos penacovenses, sou um utilizador diário do IP3 e reconheço que esta via rápida, construída no início da década de noventa, beneficiou Penacova nas acessibilidades. Quanto a isso não há dúvida nenhuma! Ficámos mais perto de Coimbra, de Viseu, da autoestrada A1, enfim, dos principais eixos rodoviários. Mas em duas décadas e meia de existência, o IP3 tem sido o exemplo acabado da forma como o poder central olha para as regiões do interior.
Em 1997, a então JAE - Junta Autónoma de Estradas adquiriu e expropriou cem mil metros de terrenos, na freguesia de Figueira de Lorvão, para construir uma área de serviço nas proximidades da Espinheira. Em setembro de 1999 foram abertas as propostas de um concurso para a construção da dita. Apenas uma empresa se mostrou interessada, a Repsol, mas a obra nunca avançou! O nó de Lorvão, e apenas o nó, viria a ser construído em 2002.
Também em meados dos anos noventa, a JAE decidiu construir uma área de repouso junto à Livraria Mondego. A ideia era poder servir também de acesso à empresa Água Caldas de Penacova. O processo parou na fase de expropriação de terrenos. O atual acesso à fábrica, então encarado como alternativo, tornou-se definitivo.
As deficiências de traçado do IP3 cedo começaram a ser notadas e pelos piores motivos. Em 2001, antes da colocação do separador central, o relatório de sinistralidade rodoviária elaborado pelos Bombeiros Voluntários de Penacova punha a nu uma realidade cruel: treze mortos e noventa e sete feridos, só na área de intervenção da corporação (km 49, descida do Botão a km 70, na ponte de Almaça).
Só depois de muitos protestos e buzinões e de um papel muito ativo da designada Associação de Utentes e Sobreviventes do IP3 e das posições duras tomadas pelos municípios abrangidos, é que o então ICERR - Instituto para a Conservação e Exploração da Rede Rodoviária avançou com a obra, isto em 2002.
A luta das populações foi também determinante na construção e abertura de passagens para peões (Raiva, por exemplo) e acessos (Coiço). Em 1997, um bloqueio de populares no Alto das Lamas teve um desfecho trágico. Duas pessoas morreram atropeladas quando um camião forçou a passagem.
Em 2006, o OSEC - Observatório de Segurança de Estradas e Cidades fez um estudo técnico minucioso sobre o traçado do IP3. Os especialistas analisaram a visibilidade, o raio e a desobstrução lateral das curvas e concluíram que os valores estavam fora dos limites de segurança. Na altura, o OSEC, uma organização não-governamental formada por juízes, engenheiros e advogados, entregou na Procuradoria Geral da República uma participação criminal para responsabilizar os autores do traçado da via. Na queixa enviada à PGR, o Observatório apontou falhas graves em 18 das 38 curvas analisadas. Essas curvas apresentavam erros de construção que levaram os técnicos a classificá-las de "extremamente perigosas."
Esta aparente indiferença com que os decisores políticos olham para os problemas do IP3 mantém-se nos dias de hoje. É escandaloso que os estrangulamentos de faixa na Espinheira e na Livraria Mondego ainda não tenham sido solucionados. Uma via com um volume de tráfego da ordem dos dezoito mil veículos por dia justificaria uma ação célere, mas o que assistimos é exatamente o contrário. Por isso eu digo, o Terreiro do Paço tem esquecido o IP3!

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