Augusto Cruz, o carteiro que enfrentou os bandidos
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| Augusto Almeida Cruz |
Pouco faltava para as dez da manhã, naquele dia 3 de maio de 1977, quando um "Morris Mini", branco, estacionou em frente à Caixa Geral de Depósitos, no centro de Penacova. Um grupo de indivíduos entrou na dependência bancária para a assaltar. Ali a dois passos, junto à estação dos CTT, Augusto Almeida Cruz preparava-se para pegar na motorizada e iniciar mais um giro. "Eu já estava no selim da mota e quando vi o que se estava a passar, comecei a tirar a matrícula do carro. Um deles veio ter comigo e obrigou-me a entrar na viatura. Eu resisti, disse que não entrava e então embrulhámo-nos os dois, bem ali em frente à Pensão Viseu. O senhor Armindo Amaral que se apercebeu de tudo, pegou na caçadeira e tentou alvejar o assaltante, mas errou o alvo e acertou nas bombas de gasolina! Eu acabei por levar um tiro de um outro ladrão que estava mais em baixo!" O corajoso carteiro foi atingido na coxa da perna direita e esteve internado, no velho hospital de Penacova, durante quinze dias. "Foi o Dr. Araújo que me tratou! Disse-me que se tivesse sido uns milímetros ao lado seria mais grave!", recorda, quarenta anos depois, Augusto Almeida Cruz.
O assalto à CGD foi amplamente noticiado naquela época. O jornal "A Comarca de Arganil" escreveu que "um destemido carteiro fez frente aos bandidos e foi atingido por um tiro".
Algumas semanas depois do assalto, o fantasma daquele dia voltou a apoquentar o famoso carteiro de Penacova - "mais tarde recebi uma carta anónima a ameaçar-me e fiquei preocupado porque tinha um giro para fazer que passava por várias aldeias do concelho."
Ao volante da sua motorizada, Augusto Almeida Cruz distribuía o correio pela Várzea, Chelo, Rebordosa, Chelinho e Foz do Caneiro. Um giro longo onde poderia ter um encontro indesejável, mas tal, felizmente, não veio a acontecer.
Quarenta anos passados, o famoso carteiro, hoje com 71 anos, recorda aquele dia com a ajuda dos recortes da imprensa da época, que guarda religiosamente - "A Comarca de Arganil até foi ao hospital tirar-me uma fotografia e publicou-a na primeira página!"
O assalto rendeu ao grupo setecentos contos, mas dois dos assaltantes foram capturados pouco depois. Eu tinha oito anos quando tudo aconteceu. Lembro-me de estar à porta de casa dos meus pais, na Cheira, e de ver passar o tal "Morris Mini", com o vidro da frente partido. Os gatunos tiveram a ousadia de parar, junto ao meu tio, António Batista, que naquela manhã trabalhava à porta de casa! Terão pedido alguma informação e depois seguiram a toda a velocidade rua abaixo! Minutos depois, parou, também junto ao meu tio, um Datsun, julgo eu, vermelho! O condutor era António Sousa Coimbra, funcionário das Finanças, que acompanhado de alguns soldados da GNR iniciava a perseguição aos bandidos. Recordo-me de ver até um helicóptero a sobrevoar, insistentemente, a zona do Penedo do Castro.
Foi há quarenta anos e um dos protagonistas foi, sem dúvida, Augusto Almeida Cruz, o herói improvável daquele dia 3 de maio de 1977.

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