O rebanho que ajuda a proteger o Buçaco
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| O rebanho da raça Serpentina |
Ali para os lados das Contenças, na freguesia de Sazes de Lorvão, lá pelas sete da matina, um rebanho de cabras sobe a encosta até à serra do Buçaco. Há quase dez anos que é assim! O pastor, neste caso, o proprietário da exploração é Arménio Antunes, o famoso maitre do famosíssimo e saudoso, restaurante Panorâmico.
Alguns dos animais têm nomes e é visível a relação de proximidade. "Sim, elas já me conhecem e respondem quando as chamo! Ali está a Estrelinha, mais além a Tukituk, o Luno, o Pretinho... Tenho um carinho especial por estes animais."
A exploração conta atualmente com quase quatro dezenas de cabras, todas da raça Serpentina. O nome vem da região, a serra de Serpa, no Alentejo e é, aliás, no sul do país onde estão concentrados os maiores rebanhos.
"Eu gosto disto e foi uma forma de ocupar o tempo", diz Arménio Antunes que confessa que a paixão pelo mundo rural vem de família - "o meu pai chegou a ter um rebanho com cento e oitenta cabeças!"
A rotina diária transformou-se numa paixão em 2008 quando decidiu investir num rebanho de cabras para ajudar a preservar a raça Serpentina que passava por uma redução de efetivos em todo o país. "Ainda hoje continuo a dedicar-me apenas à reprodução e não ao abate", acrescenta Arménio Antunes.
No entender deste proprietário, os anos passados a subir às encostas do Buçaco, ajudaram a preservar a floresta dos incêndios - "toda a gente sabe que as cabras são animais muito resistentes e comem quase todo o tipo de vegetação. No raio de ação do rebanho que é de alguns quilómetros, já não há um fogo há muito tempo porque elas encarregam-se de limpar os matos."
Na verdade, nos últimos anos, surgiram em Portugal alguns projetos-piloto para a utilização de rebanhos na prevenção de incêndios. Segundo alguns especialistas, a atividade do pastoreio é uma boa técnica porque tem um custo relativamente baixo e tem associada uma rentabilidade económica decorrente da produção de queijo, leite e da carne, se o proprietário assim o desejar.
Numa das muitas crónicas que escreveu sobre usos e costumes de Penacova, o pintor Martins da Costa também abordou o assunto - "as gentes que têm as casas, por essas aldeias do concelho, cercadas de mato e floresta e que, por desleixo, falta de tempo ou por outras razões, não limpam aqueles espaços antes do verão, têm na cabra um poderoso ajudante. É uma ajuda preciosa, barata e útil em todos os sentidos. Se o governo que todos os anos gasta milhões na floresta, em campanhas mal organizadas, pensasse também na cabra, ajudando com esse dinheiro pastores e proprietários que vivem na serra, a constituírem os seus rebanhos, o panorama dos grandes incêndios poderia ser outro."
Já é início de tarde, o rebanho regressa do Buçaco, sob o olhar atento de Borges, o cão-pastor. Arménio Antunes recolhe os seus animais, reforça a ração com milho e palha e fecha a cancela. Amanhã é outro dia!

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